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UM DIA REFLEXIVO DE ANGÚSTIA EXISTENCIAL
Entre o despertar do corpo e as interrogações da alma
RESENHA
- Há amanheceres em que o ser humano desperta não apenas do repouso fisiológico, mas para uma consciência aguda e profunda da sua própria existência. - O corpo, já marcado pela passagem dos anos, manifesta suas dores silenciosas e limitações sutis; a mente, por sua vez, vagueia entre memórias que se entrelaçam, dúvidas que não se calam e inquietações que desafiam qualquer tentativa de reduzir a vida a uma lógica imediata de felicidade ou proveito.
- Num desses dias de recolhimento e introspecção, o despertar deu-se lentamente, como quem se aproxima de um mistério. - Após movimentos de alongamento, semelhantes aos de um felino que busca reencontrar a própria estrutura e reorganizar a vitalidade que circula nos músculos e nas veias, veio o gesto de sentar-se, com cautela deliberada, sobre a cama que fora refúgio noturno. - Um gesto simples, mas carregado de prudência e de plena consciência de si mesmo. - - A rotina dos cuidados com o corpo seguiu seu curso habitual: a higiene, os pequenos reparos na aparência, o ajustar-se à presença física diante do novo dia que se abria.
- Contudo, enquanto o organismo alcançava um relativo equilíbrio funcional, os pensamentos caminhavam em direção oposta à serenidade. - Três interrogações existenciais pairavam no intelecto como nuvens densas e estáveis sobre um horizonte ainda indecifrável:
1 - Qual o sentido desta repetição diária que se renova ao despertar? 2 - Por que a preocupação insiste em acompanhar a caminhada do pensamento humano? 3 - Qual a finalidade última desta contínua travessia que chamamos existir?
- São perguntas que carregam a idade da própria humanidade, indagações que habitam o espírito desde que o homem aprendeu a olhar para si mesmo e a questionar o porquê das coisas.
ENSAIO
- O homem contemporâneo, especialmente aquele que já percorreu décadas suficientes para amadurecer o olhar, já não observa a vida apenas sob a luz das conquistas materiais ou dos entusiasmos passageiros da juventude. - Passa a enxergar o existir como um conjunto de ciclos que se sucedem, de permanências que se afirmam e de despedidas que acontecem, muitas vezes, em silêncio.
- O amanhecer deixa, então, de ser um mero acontecimento biológico, automático e indiferente. - Torna-se uma espécie de rito filosófico que se repete diante de nós. - Levantar-se exige, não somente a força dos membros, mas também uma motivação que nasce dentro do espírito. - O corpo reclama o seu cansaço; a memória compara o que foi com o que é; o espírito, inquieto, não cessa de perguntar.
- Ainda assim, e justamente nisso, reside uma forma de grandeza.
- A repetição cotidiana, tantas vezes julgada como monotonia ou prisão, pode ser compreendida também como continuidade, como resistência e como um ato de permanência diante das mudanças inevitáveis. - O simples fato de acordar, de reorganizar o corpo que se transforma, de observar os próprios pensamentos sem fugir deles e de seguir adiante, constitui uma silenciosa e heroica demonstração de coragem existencial.
- A preocupação, essa companheira frequente, nasce exatamente da consciência que nos distingue. - Os animais vivem inteiramente o instante presente; o homem, porém, vive também nas projeções do amanhã, nos ecos do ontem e nas incertezas do destino que ainda não se desenhou. - Pensar profundamente é, portanto, um privilégio que nos eleva, mas também um peso que carregamos na alma.
- Todavia, talvez o verdadeiro sentido da vida não resida em encontrar respostas absolutas e definitivas — essas que, se existissem, poriam fim à própria busca —, mas em aprender a percorrer a própria caminhada com lucidez, com aceitação e com dignidade.
- Na maturidade, muitos descobrem que felicidade não é, nem pode ser, um estado de euforia permanente ou de alegria ininterrupta. - Felicidade, para quem já entendeu o ritmo da vida, significa a paz que é possível alcançar. - Pode ser o gozo tranquilo de um café ao amanhecer; o canto livre de um pássaro que corta o céu; o perfume suave de uma flor que se abriu depois da chuva; ou, ainda, o silêncio confortável que se faz dentro da própria consciência, quando enfim nos entendemos um pouco mais.
- É nessa atitude de simplicidade e de contemplação que o espírito encontra o equilíbrio emocional que tanto procura.
CONCLUSÃO
- As angústias existenciais acompanham a humanidade desde os primeiros filósofos que se debruçaram sobre o destino do homem até os seres contemporâneos que, em silêncio, refletem diante do espelho do tempo que passa. - Elas não são sinal de fraqueza, mas manifestação de uma sensibilidade aguda diante da complexidade de estar vivo.
- O corpo pode envelhecer lentamente, perdendo o viço e a força; contudo, enquanto houver reflexão, enquanto existir a curiosidade intelectual, a memória que guarda afetos e a capacidade de se maravilhar com o mundo, permanece viva a essência humana — essa parte de nós que não envelhece e que nunca deixa de buscar um sentido para existir.
- Talvez o segredo não esteja em eliminar as dúvidas, como se fossem sombras indesejadas, mas em aprender a conviver com elas, em integrá-las à nossa história, sem jamais perder a capacidade de admirar e de acolher o amanhecer seguinte.
FRASE AFORÍSTICA — Síntese Beckhauseriana
- “O homem amadurece verdadeiramente quando compreende que viver não é encontrar todas as respostas, mas continuar caminhando apesar das interrogações.” — Laércio Beckhauser, cadeira 22 da AJL - Academia Joinvilense de Letras - #LBW, #joinville , #angústiaexistencial, #vida, #Beckhauser Beckhauser
Enviado por Beckhauser em 17/05/2026
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