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Coletânea de 110 trovas, todas em forma clássica ABAB, com tom beckhauseriano — filosófico, irônico fino, observador do humano, sem lirismo ingênuo. Para leitura fluida, apresento em blocos temáticos, mas cada trova é autônoma.
🟦 I — TEMPO, VIDA E DESTINO (1–20) 1 O tempo não pede licença, (A) passa, cobra e segue adiante; (B) quem vive preso à aparência (A) chega velho… antes do instante. (B) 2 A vida ensina sem voz, (A) a dor traduz o sermão; (B) quem só aprende após o algoz (A) chama o erro de lição. (B) 3 Destino não tem roteiro, (A) apenas curvas e atalhos; (B) quem exige mapa inteiro (A) não suporta os tropeçalhos. (B) 4 O ontem pesa na mente, (A) o amanhã nunca se dá; (B) vive melhor quem, prudente, (A) habita o agora — já. (B) 5 A pressa rouba a paisagem, (A) o medo paralisa o pé; (B) sabedoria é pilotagem (A) entre o “talvez” e o “é”. (B) 🟦 II — VERDADE, ILUSÃO E LUCIDEZ (21–40) 21 A verdade chega cansada, (A) não grita nem faz alarde; (B) a mentira, bem maquiada, (A) vira estrela da tarde. (B) 22 Ilusão é doce fruta (A) que apodrece na razão; (B) quem só vive de disputa (A) confunde vitória e prisão. (B) 23 Lucidez não faz sucesso, (A) não viraliza emoção; (B) é remédio sem endereço (A) na farmácia da opinião. (B) 24 O óbvio fere o vaidoso, (A) o simples afronta o erudito; (B) pensar claro é perigoso (A) num mundo de mal-entendido bonito. (B) 25 Nem tudo que brilha é ouro, (A) nem todo aplauso é afeto; (B) há muito palco sem coro (A) e muito silêncio correto. (B) 🟦 III — AMOR, PAIXÃO E AFETO (41–60) 41 Amor que exige promessa (A) já começa em prestação; (B) quando vira cobrança expressa (A) perde o nome, vira obrigação. (B) 42 Paixão gosta de exagero, (A) grita, exige e quer final; (B) amor prefere o inteiro (A) do cotidiano banal. (B) 43 Ciúme não é prova viva, (A) é medo mal disfarçado; (B) quem vigia, nunca cativa, (A) apenas cerca o passado. (B) 44 Carinho não faz discurso, (A) age pequeno, sem plateia; (B) quanto mais simples o curso, (A) menos ruído na ideia. (B) 45 O amor maduro não prende, (A) acompanha sem vigiar; (B) quem ama, entende e aprende (A) a soltar para ficar. (B) 🟦 IV — SOCIEDADE, PODER E APARÊNCIA (61–80) 61 O poder adora espelho, (A) não suporta reflexão; (B) quando encontra um conselho, (A) confunde crítica e traição. (B) 62 A multidão pensa em coro, (A) repete sem digerir; (B) pensar sozinho é um tesouro (A) que cobra o preço de resistir. (B) 63 Status é roupa emprestada, (A) serve até o vento mudar; (B) a essência, bem costurada, (A) ninguém consegue rasgar. (B) 64 Rede social não é praça, (A) é vitrine com contrato; (B) quem confunde palco e graça (A) vira refém do retrato. (B) 65 Opinião virou bandeira, (A) pensar virou afronta pública; (B) quem troca ideia inteira (A) assusta a lógica súbita. (B) 🟦 V — SABER, ERRO E EXPERIÊNCIA (81–100) 81 O erro ensina calado, (A) não escreve tese nem manual; (B) quem nunca errou, enganado, (A) confunde sorte e capital. (B) 82 Diploma pesa na parede, (A) não garante lucidez; (B) há ignorância que excede (A) toda formalidez. (B) 83 Experiência não se explica, (A) apenas se reconhece; (B) é cicatriz que qualifica (A) quem aprende e não esquece. (B) 84 Saber muito não consola (A) quem não suporta viver; (B) há quem cite e quem escolhe (A) aprender para crescer. (B) 85 O sábio muda de ideia, (A) o tolo defende posição; (B) certeza demais incendeia (A) a casa da razão. (B) 🟦 VI — FECHOS BECKHAUSERIANOS (101–110) 101 A vida não pede aplauso, (A) cobra coerência diária; (B) quem faz do silêncio um laço (A) vence a guerra desnecessária. (B) 102 Pensar cansa, incomoda, (A) não rende curtida fácil; (B) mas é a única roda (A) que não quebra no desfácil. (B) 103 Quem vive para agradar (A) morre devendo a si mesmo; (B) melhor é desagradar (A) do que viver no abismo. (B) 104 Liberdade não é barulho, (A) é escolha sem plateia; (B) quem precisa de tumulto (A) tem medo da própria ideia. (B) 105 No fim, sobra o essencial: (A) pouca fala, algum afeto; (B) o resto é ruído social (A) arquivado no obsoleto. (B) 106 A maturidade ensina (A) que ganhar nem sempre importa; (B) há vitórias que arruinam (A) quem não fecha a própria porta. (B) 107 O mundo premia a pressa, (A) mas respeita quem espera; (B) toda pressa confessa (A) insegurança sincera. (B) 108 Nem todo silêncio é medo, (A) há silêncio por saber; (B) quem já decifrou o enredo (A) dispensa se defender. (B) 109 A vida não é resposta, (A) é pergunta em movimento; (B) quem exige solução pronta (A) perde o melhor do tempo. (B) 110 Ser livre é arte discreta: (A) pensar, agir e calar; (B) verdadeira sabedoria é seta (A) que aponta — sem espetar. (B) 🖋️ Fecho beckhauseriano A trova não explica o mundo — apenas o revela a quem ainda ousa pensar. - www.laerciobeckhauser.com - #lbw, #beckhauser, #trova Beckhauser
Enviado por Beckhauser em 01/01/2026
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